O Desejo

 

Da janela do seu quarto avistava o estuário do Tejo: as garças brancas e esbeltas procuravam comida entre os tufos verdes semi-submersos na àgua límpida do rio. Suspirou. Os seus olhos já não continham as lágrimas que teimavam em escorrer pelo rosto pálido e triste. Ultimamente o seu coração apertava de forma incontrolada e pensamentos negros e tortuosos ensombravam-lhe a mente. Era a dúvida que a traia muitas vezes na vida. De nada serviria tentar convencer-se de que ele a amava… Tirou um retrato antigo de uma caixa de cartão. Observou a foto demoradamente, enquanto deixava cair a lágrima tão teimosa. Brilhante. Salgada. De paixão. De amargura.

Pegou num livro de Vergílio e abriu-o sem pensar. ”Há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois.”. Era isso. O Desejo, o Limite e o que se Alcança. Fechou o livro bruscamente, limpou a lágrima e foi ver a vida lá fora.

 

 

 

 

 

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